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FRUSTRAÇÃO

  O último souvenir que Amor me enviou estava recheado de incerteza, falsa esperança, autoilusão e autoencantamento (que eu chamaria também de negação) de quem ainda não sabe aceitar que deve (mas tenta) buscar solitariamente a própria salvação. Abri esse souvenir com uma boa dose de medo e desconfiança, e, torcendo para estar enganada, o coloquei num cantinho seguro de uma estante. Merecia ele um pseudoaltar, ou era melhor ter enviado de volta ao remetente?  "Bom, vejamos quanto tempo esse souvenir dura. Ele é lindo, mas algumas coisas não combinam tanto com o resto da decoração. Está com muita fuligem e pó branco, mas nada que uma boa limpeza não resolva. A antiga dona não devia cuidar muito bem dele. É bem moderninho e atemporal ao mesmo tempo - se você quiser colecioná-lo, pode encomendar mini bibelôs parecidos com ele. Até que esse souvenir me renderia boas conversas em reuniões de família e de amigos." Sempre que eu o verificava, ele estava numa posição diferente. Era...

PERIGO

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O rapto de Proserpina, de Bernini ~  Disse uma vez ao Amor "Não me procure nunca mais"  E assim por um tempo obedecera   a razão do meu dissabor  Banido estava por razões sentimentais O infortúnio é que Amor jamais me esquecera Sente saudades, está sempre à espreita Envia-me souvenirs recheados de suspeita Doces lembretes de que está voltando Trapilíssima, sigo caminhando É que fujo dele e também de mim de suas promessas vazias e do meu desejo sem fim um dia tudo sempre se acaba restando eu, o coração e o nada Não sei que diabos Amor quer comigo É inegável que ele é irresistível Mas com ele, clareza e certeza é impossível E a ausência dessas, um eterno castigo Sei que disse "não lhe quero nunca mais" está sinalizado como possível perigo Mas confesso, admito:  viver sem ele também é algo que não se faz.

PRINCESA, parte um

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Auguste Toulmouche  (French, 1829-1890),  The Hesitant Fiancée , 1866. Oil on canvas. Prisioneira do meu próprio castelo, nascida e criada para viver sozinha, proibida de viver qualquer gesto singelo Condenada à desconfiança eterna,  ninguém pode atravessar os portões desta prisão. Sou indigna de ter uma paixão, quebraram as minhas pernas. Sou uma flor proibida, nunca cheirada, nunca sentida,  sob esta gaiola de ferro, apenas vista. Aqui, esta princesa sequer se arrisca.  Não tenho tranças para jogar,  nem asas para voar, ou um tapete voador Felicidade? Só sente dor... Essa princesa, aqui, não tem vida apenas existe por si só, observando chegadas e partidas,  planejando evitar voltar ao pó No castelo, mesmo presa inúmeros erros comete a princesa e ela se frustra, e ela é punida,  e nenhuma confiança a ela é cedida. A princesa sabe que não existe príncipe nem ogro, nem sapo, nem rei que possam salvá-la nos termos da lei Cai o pano. É jogada a toalh...

RANCOR E DESPREZO - ou a salvação?

leitores (pois não sei quem me lê e se são ou não os mesmos), já fazem seis meses desde a desgraça acometida. hoje fui profunda e terrivelmente afetada por ela novamente, em questão de horas, mas eis-me aqui. resoluta e recomposta. realmente a vingança é um prato que se come frio, e que vem quando a intuição se aflora. não conheço ninguém tão rancorosa como eu: trair-me é um perigo. cuidado com a bruxa boa... cuidado com aquela que fica muito calada. a pior maldição é aquela lançada pelo verdadeiro romântico: só nos livramos dela depois que o respeitamos verdadeiramente e pedimos desculpas sinceras. "calada vence", dizem por aí. e como vence! e que bom que quem me acolheu estava certo! e que bom que tive um livramento! e que bom...! já sabem que gosto de passar recados públicos. nunca me arrependi de nenhum deles - pois sentir é bom e também sou humana, ao contrário do desgraçado. sem o devido respeito, já que ele não me deu - e vim deixar mais um. Com a devida liberdade poét...
já não estou mais nem tão mal e nem tão bem. esquecer continua sendo difícil. sigo me sentindo traída e magoada, quero te bater, quero te espancar, quero te destruir, quero acabar com a sua vida, quero torná-la tão desconfortável quanto a minha. espero que o universo faça isso por mim. mas tenho certeza de que em um ano estarei bem melhor. pelo menos assim espero.  continua difícil me reacostumar a viver sozinha. não vejo mais valor nem em prestar confidências aqui. mas é o que dizia Clarice... trapilíssima avante sine qua non masioty - ai de nós e você.
 será que algum dia minha vida vai melhorar? vai deixar de ser medíocre? 
serás para sempre o amor da minha vida. sigo incapaz de te odiar. e reconheço que nós dois precisamos muito crescer em vários sentidos. um dia nos reencontraremos.
 como é terrível me sentir sozinha por odiar a mim mesma. 

DOR DE CABEÇA

 já não quero mais ter você aqui comigo. tenho medo de que você faça tudo de ruim de novo. tenho medo de que outra pessoa também faça isso comigo. o verdadeiro deveria ser eterno, mas infelizmente o verdadeiro não dura pra sempre. pelo menos não quando o outro lado não compreende (ou teme) a grandiosidade e o prazer de se fazer a escolha diária de se cegar e acreditar que o outro irá melhorar, que ambos irão melhorar, porque vale (valia) a pena sonhar com a coexistência. eu queria ser sua testemunha. você não quis ser a minha, por problemas unicamente seus. porque eu sei que me dediquei, eu me fiz completamente vulnerável a você, e você escolheu não fazer isso. você se escondeu atrás do silêncio e me torturou, me fez sentir que era minha culpa o fim disso, quando na verdade tudo isso é culpa do seu medo de se abrir e colocar em palavras o que sente e não sente, o que te preocupa e não preocupa, o que te cansa e o que te dá energia, é tudo culpa do seu gosto por ficar sozinho. e eu ...

AMARGURA

 o sol a bater em minhas pernas, a gata a se lamber deitada na cama. é melhor ficar sozinha. é melhor continuar sozinha. voltamos à estaca zero. foi tudo só mais um sonho. o sonho mais bonito e mais realista que já tive. devo continuar sozinha. sonhos não valem de nada. viver é obrigação a se cumprir. infelizmente. não quero correr o risco de passar por tudo isso de novo. tive uma vontade, matei essa vontade, aprendi minha lição. mesmo não querendo. nunca mais quero voltar aqui, pra esse ponto de desgosto e vazio. de amargura.  hoje foi o primeiro dia em que eu desisti de ti, apesar de ainda sentir falta da sua companhia, do que eu sentia quando estava ao seu lado, do que nós sentíamos.  simplesmente percebi que a minha vida sempre foi um grande vazio, tive algumas fugas desse vazio, é incrível o quanto você preencheu a minha vida, e mais incrível ainda o quanto você vagarosamente a esvaziou novamente. infelizmente seus defeitos foram mais fortes do que sua vontade de fic...

MARTÍRIO

 meu amor, meu xuxuzinho, ainda sinto falta de você. sonho com você quase todos os dias.  eu sei que já estávamos destinados a um fim. me diga, enquanto foi possível, você me amou de verdade? você teve sonhos comigo? tudo que eu faço me lembra você. você sempre está aqui comigo, nos meus pensamentos, no meu coração. mas você não gosta mais de mim... e eu não me permito mais chorar por sua causa.  você foi maravilhoso comigo. você foi horrível comigo. estou triste porque tenho que deixar você ir. você não é mais meu. como eu gostaria que você não fosse de mais ninguém... eu te amei cegamente. te desejei todos os dias. nunca imaginei que amar tanto alguém pudesse ser tão ruim.  não consigo sair de casa. tudo me lembra você. tudo me lembra você... quero te esquecer logo, porque eu sei que você já esqueceu de mim. quero parar de me sentir ferida todos os dias. eu confiei em você. eu acreditei em você. eu pensei que você ia mudar. mesmo você sinalizando que não iria. por ...

CORAÇÃO PARTIDO, CAPÍTULO II

estou cansada de sempre estar de coração partido. desisti de mim. acompanhada ou sozinha, sempre me sinto terrível, horrível, insuportável. a tendência é que meus dias se tornem cada vez mais difíceis e não tenho mais ninguém para suportá-los junto comigo. perco a graça de viver a cada dia que passa. sou uma frustração ambulante. nasci para ser sozinha, e nasci com o incrível fardo de ousar sonhar que teria um melhor amigo, um parceiro, alguém que queira se casar comigo e crescer comigo. não podia eu ter nascido com um sonho mais simples? um sonho menos difícil? o que eu quero é impossível. você me deixou. eu respeito isso. eu luto contra essa vontade amarga de lhe empurrar e  pedir uma justificativa que eu consiga engolir, porque eu não me conformo. fizemos promessas, queríamos viver essas promessas, eu te aguentei quando você estava na pior, e quando eu estava nos meus momentos ruins você simplesmente decidiu que eu não era mais pra você. por que você parou de acreditar na gente?...

SOBRE ESTAR DE LUTO EM VIDA

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não sou mais quem eu era há dois anos atrás. e odeio profunda e amargamente essa minha versão. quero matá-la, mas ela é minha sombra - e ao contrário do filme animado do Peter Pan, em que a sombra dele foge de seu dono, a minha me persegue. não consigo fugir dela. e é extremamente difícil aguentá-la quando ninguém mais a vê, pelo menos não do jeito que eu a vejo. estou cansada de soluções racionais. passei a vida inteira sendo racional, e é cansativo e exaustivo estar sempre engolindo o choro para tentar fugir do que sinto. sentir por si só já um fardo terrível quando você se acostuma a reprimir suas emoções por medo de chegar a um estágio pior do que o em que já está. me odeio com tanta intensidade que parece que ninguém mais se lembra de mim. mas quem lembraria? hoje está cada um preocupado com a sua própria sombra, seja ela um monstro ou não.  estou de luto em vida porque papai desenvolveu Alzheimer. e é devastador ver todos os dias que ele não consegue mais ser o homem que eu c...

NÃO-EXISTÊNCIA

 sinto-me como se não devesse existir como um fardo sinto que deveria ser outra pessoa e penso no que deve ser feito para eu ser essa outra ao mesmo tempo sinto que não deveria mudar que não é preciso deixar de ser quem sou sumir e esvair do meu ambiente de existência  não mereço viver o que tenho pra viver pois sou um fardo. não consigo mudar quem sou eu e tampouco consigo debulhar em lágrimas todas essas feridas internas que se acumulam, se multiplicam e sangram todos os dias meu único momento de estancamento açucarado é quando estou nos braços dele e aquele cheiro a princípio tão insignificante é a minha cura momentânea e viciosa para essa minha dor de existir eu me odeio, mas eu me amo mais quando estou com ele e me odeio mais ainda por ter esse vício em querer fugir de mim mesma, em esquecer quem sou e por que existo quero um dia parar de ter medo e tremer tanto por tentar viver sendo eu mesma sou proibida de tal tentativa porque tanto me protegem que prefiro morrer, isto...

FLIRTATION

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Eros & Psique - Antonio Canova  What is that witchcraft of yours that makes me think about you as soon as I wake up until I fall asleep? Twenty miles away is what divide us but that distance is the one thing that makes me crave being with you now; Why and how did you choose me to be the target of your arrows, these heart-shaped arms that send me attention and affection just because I am the subject of your mind?  I beg you to make me feel more of it, longer and stronger, for I want to be with you and give my heart away to such tender passion, this strange addiction of giving and receiving in a pure and worthy way; I swear I’m trying not to think this is all fun and games, a lie, because from a broken heart there is nothing else to get But sadness and disappointment  And as a queen of disappointments I wish to throw my crown away and dive into your waters, Which,  I’m sure, are a nice place to surrender [in your arms].

TO A LOVER

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Forget-me-not flowers. Source: unknown, Pinterest Oh, to touch that skin of yours and feel the excitement and electricity of meeting someone new. Getting to know you bit by bit, twenty miles away from me  —  such an amazing discovery. Wondering if it's all fun and games, Reason warns me: the attitude, my dear, it never lies. There is a blur in my mind whenever I'm talking to you as if I can't do nothing else but learn more about this life of yours and share mine. Fear and discouragement, still on the way, saying: "do it not, for it'll go wrong again. Life's a box full of disappointments and we need not another for our collection." I try not to raise expectations as my heart is imprisioned, once again, for fantasizing excessively.  Protective measures, you see. But I go on, still; I crave you. To start feeling deared, and loved, and cared for by other than not your family and friends is such a miracle that it seems a lie:  A lie I want not to end, for I wan...

PANDEMIC

Today was hard to breathe. The air, light and clean, My toughts, heavy and unwilling to leave. What to study first it's difficult to mend. Chest hurts. Can't even outburst my heart's content. No wonder I need to go  back to therapy. The daylight is scary, but wish it to never end. The night has come  and so has anxiety. Sudden relief. Quietness, dark's bequeath. A strong desire: to live,  to study, to paint,  and to breathe. And then there's guilt Guilt for not taking care (But I am trying, I swear) of a future spilt.

AINDA NÃO CONSIGO OLHAR PARA SUA MESA VAZIA

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Ao leitor, sugiro ler ouvindo Marchinha Fúnebre, do Rodrigo Alarcon, ou Último Desejo, do Noel Rosa, interpretado por Martinho da Vila. Uma semana sem ele. Só se passaram sete dias, mas às vezes parecem anos e, no pior dos corações, é como se tivesse sido ontem. Sempre vai parecer que foi ontem. Falo como se ele tivesse falecido. E de certa forma, morreu. A presença dele era marcante em cada segundo do meu dia. Pensava ter finalmente encontrado alguém, mas na verdade o que veio foi a certeza de que “alguém” não existe. Ele deixou de se sentar ao meu lado. Ainda não consigo entrar na sala e notar a carteira vazia. Parte de mim adentra a sala na esperança de que ele irá voltar para o lado de cá. Tudo se tornou um borrão – e a única coisa relevante é a voz da professora de Latim. De que adianta olhá-la se não terei com quem rir silenciosamente das piadas? É que ele – vamos chamá-lo de X – me proporcionou tantos momentos bons, que o fato de não acontecerem nova e rotineirame...

A SECA QUE SECA

A fadiga da vida se acentua com a chegada da seca. Geográfica ou psicológica, é o esvaecer daquilo de mais precioso e vital à existência humana: a água – e o amor. Água, vide o sofrimento no sertão. Amor, vide o que Lispector diz sobre ele ser “a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio por isso não envaidece”. De tempos em tempos, o homem, cansado e sedento, põe na mão do universo a mais incerta das decisões: ter de volta a sua fonte de sensatez, pois água e amor são puros sinais de sobriedade. A consciência de estar vivo, atrelada a uma animadora certeza do porquê continuar a viver – eis aí o fim e o começo da assustadora seca que seca. Essa estiagem, antes tão natural e imperceptível, deixou de ser cíclica e perdeu seu controle por mero descuidado humano. Sua inquebrantável presença absorve, agressivamente, as variáveis da água e do amor: tudo que há de bom no mundo perde o significado, e ao homem resta apenas frustração e desejo. Sem água o mundo se exting...

ALMA

O mistério que carregas em tua pose - é de ti para mim ou de mim para ti? Por que em teu olhar há algo de ordinário além do necessário? E sua alma, quem a constrói? Decifra-te ou me devore. The mystery that you carry in your posture - is it from you to me or from me to you? Why is there something ordinary in your gaze beyond what is necessary? About your soul: who builds it? Decipher yourself or devour me.